I
A esfinge ao contrário
Ali estava aquele homem prostrado diante daquela tela, olhando para ela como quem esperava um entorpecente, uma morfina para calar alguma dor de algum vazio que ele carregava. Ela era uma espécie de bar woman de versos, Ele bebera do seu on the rocks de letras e gostava da sensação da embriaguez.Ele sempre voltava para bebê-la, fatiada em linhas. Ela costumava se despedaçar e despir-se escandalosa e generosamente para quem quer que quisesse lê-la. De suas letras brotavam, seda, lama, sofisticação, venenos doces, antídotos, pin-ups santíssimas, freiras obscenas e luxúria, muita luxúria. Ela tinha lascívia por viver.
Ela era uma alma caridosa, dava a todos que tivessem fome com o saciar-se da sua visão de boneca-de-louça, seus olhos transbordantes de doçura, sonhos e sexo desmedido. Ela era uma esfinge ao contrário, sempre a dizer: “devora-me ou decifro-te”. Ele,esperava sua súbita aparição branca, trazendo notícias do seu universo paralelo.
Ela havia lhe confessado que o panaca por quem ela se encharcava, depois de inundá-la, arranhando suas costas em uma parede de um banheiro e, cujo momento ela esperou como uma noiva pura e tonta, lhe confessou que não sabia o que sentia, logo naquele dia, depois que ela escolheu o altar de um banheiro para a cerimônia de consumação de serem uma só carne, um só corpo, e se deu para ele em cerimônia pagã e santa.
Por que ele não penetrou nela a noite inteira, esfregando as suas costas também em tetos, chãos, camas, lençóis? Por que não rasgou as suas costas com os dentes enquanto a possuía com a fome de um tigre? Como conseguiu ter tão pouca fome assim diante daquele banquete de iguarias?
II
Birdcage
Ele havia colocado muitas iscas espalhadas na gaiola multicor. Sabia que ela era um pássaro rebelde. Encheu-o de músicas, cheiros, quadros raros e buquês de letras, suas flores prediletas. Sabia que ela tinha uma fome voluptuosa de tudo que fosse liberdade e que logo apareceria.Suspeitava que seus quadris escondiam asas.
III
INCÊNDIOS, ENCHARCAMENTOS E BEBIDAS QUENTES
Poderia-se dizer-se que tudo nela era vermelho. Ela era um inferno de delícias, ela era um incêndio que caminhava. Ela veio com todas as suas fogueiras, suas promessas de banquete de carne branca e tenra. Ela era um jardim vivo de flores do campo rubras e pecaminosas. Mas, era sua boca carmim que mais o hipnotizava, ela era claramente inflamável, de fácil combustão. Invadi-la deveria ser como engatilhar implosões químicas, maremotos de sabor salgado, encharcamentos de seda vermelha e ilhas róseas, se exibindo como penínsulas narcisistas. Possuí-la talvez fosse pisar em campos de morango com visões de céus psicodélicos de diamantes incandescentes e indecentes. Era ouvir canções que se canta quando a alma flutua ou quer alívio. Seria fartar-se de um sarau onde ele seguraria pelas jarras de suas ancas e beberia algum vinho desconhecido de mortais covardes, de bebidas quentes. Ele a beberia a goladas, queimaria sua garganta como um bárbaro faminto e sedento.
IV
O BOTE
Ele fechou os olhos e a viu cuspindo poemas numa folha em branco com a boca ávida por letras e línguas. Entrou, nada falou, lhe disse sem cerimônia:
- Abra suas folhas baby, suas pernas. Hoje eu quero ler esse puro e pornográfico livro do teu ser. Escrever minha boca em cada canto do teu corpo, riscar com meus dentes em tuas costas letras garrafais dizendo : EIS AQUI UMA MULHER DESEJADA!
E sonhou que rasgariam cartilhas de comportamentos, sedas negras, qualquer fio de escarlate que se vestisse, e consumiriam-se no fogo-fátuo e vermelho de tudo. Quebrariam dogmas, tabus, regras, garrafas de vinho, champagnes e martinis.
V
O HOMEM QUE AMOU UM INCÊNDIO
Agora ele só pensava em incêndios.Ali estava ele olhando aquela tela mais uma vez. Ela apareceu, e, depois de um longo silêncio cúmplice, lhe disse que tinha medo, mas, com ele, ela queria que chovesse. Deixou-o imaginar que talvez banhassem na chuva.
De longe a cena era original, estranha e bela. Era um homem abraçado a um incêndio debaixo da chuva torrencial.
PS. Não encontrei a fonte do texto, lembro somente que enquanto bailava pelo mundo dos blogs me apaixonei pela crônica, salvei e agora tempos depois, não resisti postei ;)