terça-feira, 30 de março de 2010

amoras



                                                                                           Imagem

O cenário é comum. Um pé de amoras. Um gramado e alguns outros pés, de outras frutas, no momento menos importantes.
Nenhum desses pés trás a marca, eternizada anos atrás no tronco mais grosso daquele pé de amoras, nenhuma outra fruta daquele gramado ofereceria um suco de cor tão forte, tão bela, tanto que pudesse ser usada, como foi, para substituir a caneta esquecida, tão precisa para poder estampar na pele branca, aquele pequeno verso criado de improviso.
E ali em meio a sombra oferecida pelas folhas e amoras, ele corria a fruta pelas costas, braços e pernas daquela que era sua alma gêmea. E ali deitada a mercê da criatividade e euforia daquele que era a metade da sua laranja, minto, ela nunca acreditou em metades, e essa historia de se completar, enfim, ali com aquele homem, diante daquela cena, digna de quadro, ela se sentia repleta de bons sentimentos, repleta da paixão tão cobiçada, repleta de tudo que representava estar viva.

domingo, 21 de março de 2010


O bom mesmo é escrever logo que acontece. Quais palavras será que viriam em mente?
Desapontamento? Impotência? Não. Não
Provavelmente. Estilhaços, dor, vazio.
No momento do baque, no instante em que se constata ou descobre-se algo, tudo fica mais intenso, inclusive o vocabulário, é a tentativa de externar de forma fidedigna o se passa por dentro.
O coração apertou, a pupila sem dúvida se dilatou, pois mesmo a luz fraca do quarto foi suficiente para incomodar os olhos, olhos que por sinal ficaram marejados, por alguns segundos sentiu que tudo em volta havia parado, na verdade ela foi quem parou, parecia a velha brincadeira de estátua, e talvez fosse assim que ela gostaria de permanecer. Continuar ali sentada evitaria tanta coisa, tanta dor, tantos questionamentos, mas isso seria evitar de viver, e ela não poderia se dar ao luxo de deixar a vida passar, de continuar deixando a vida passar na verdade.
Seja como for, por fraqueza ou pouco querer, é fato que as pistas que a levavam até ele foram excluídas, pouco do que resta fará ela se lembrar.
E que seja assim, ela não sabe mesmo cortar o mal pela raiz.
Cultivar meias-verdades, meias-paixões talvez seja sua diversão.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Aquela antiga crônica


I
A esfinge ao contrário

Ali estava aquele homem prostrado diante daquela tela, olhando para ela como quem esperava um entorpecente, uma morfina para calar alguma dor de algum vazio que ele carregava. Ela era uma espécie de bar woman de versos, Ele bebera do seu on the rocks de letras e gostava da sensação da embriaguez.Ele sempre voltava para bebê-la, fatiada em linhas. Ela costumava se despedaçar e despir-se escandalosa e generosamente para quem quer que quisesse lê-la. De suas letras brotavam, seda, lama, sofisticação, venenos doces, antídotos, pin-ups santíssimas, freiras obscenas e luxúria, muita luxúria. Ela tinha lascívia por viver.

Ela era uma alma caridosa, dava a todos que tivessem fome com o saciar-se da sua visão de boneca-de-louça, seus olhos transbordantes de doçura, sonhos e sexo desmedido. Ela era uma esfinge ao contrário, sempre a dizer: “devora-me ou decifro-te”. Ele,esperava sua súbita aparição branca, trazendo notícias do seu universo paralelo.

Ela havia lhe confessado que o panaca por quem ela se encharcava, depois de inundá-la, arranhando suas costas em uma parede de um banheiro e, cujo momento ela esperou como uma noiva pura e tonta, lhe confessou que não sabia o que sentia, logo naquele dia, depois que ela escolheu o altar de um banheiro para a cerimônia de consumação de serem uma só carne, um só corpo, e se deu para ele em cerimônia pagã e santa.

Por que ele não penetrou nela a noite inteira, esfregando as suas costas também em tetos, chãos, camas, lençóis? Por que não rasgou as suas costas com os dentes enquanto a possuía com a fome de um tigre? Como conseguiu ter tão pouca fome assim diante daquele banquete de iguarias?


II
Birdcage


Ele havia colocado muitas iscas espalhadas na gaiola multicor. Sabia que ela era um pássaro rebelde. Encheu-o de músicas, cheiros, quadros raros e buquês de letras, suas flores prediletas. Sabia que ela tinha uma fome voluptuosa de tudo que fosse liberdade e que logo apareceria.Suspeitava que seus quadris escondiam asas.

III
INCÊNDIOS, ENCHARCAMENTOS E BEBIDAS QUENTES


Poderia-se dizer-se que tudo nela era vermelho. Ela era um inferno de delícias, ela era um incêndio que caminhava. Ela veio com todas as suas fogueiras, suas promessas de banquete de carne branca e tenra. Ela era um jardim vivo de flores do campo rubras e pecaminosas. Mas, era sua boca carmim que mais o hipnotizava, ela era claramente inflamável, de fácil combustão. Invadi-la deveria ser como engatilhar implosões químicas, maremotos de sabor salgado, encharcamentos de seda vermelha e ilhas róseas, se exibindo como penínsulas narcisistas. Possuí-la talvez fosse pisar em campos de morango com visões de céus psicodélicos de diamantes incandescentes e indecentes. Era ouvir canções que se canta quando a alma flutua ou quer alívio. Seria fartar-se de um sarau onde ele seguraria pelas jarras de suas ancas e beberia algum vinho desconhecido de mortais covardes, de bebidas quentes. Ele a beberia a goladas, queimaria sua garganta como um bárbaro faminto e sedento.


IV
O BOTE

Ele fechou os olhos e a viu cuspindo poemas numa folha em branco com a boca ávida por letras e línguas. Entrou, nada falou, lhe disse sem cerimônia:

- Abra suas folhas baby, suas pernas. Hoje eu quero ler esse puro e pornográfico livro do teu ser. Escrever minha boca em cada canto do teu corpo, riscar com meus dentes em tuas costas letras garrafais dizendo : EIS AQUI UMA MULHER DESEJADA!
 

E sonhou que rasgariam cartilhas de comportamentos, sedas negras, qualquer fio de escarlate que se vestisse, e consumiriam-se no fogo-fátuo e vermelho de tudo. Quebrariam dogmas, tabus, regras, garrafas de vinho, champagnes e martinis.

 
V
O HOMEM QUE AMOU UM INCÊNDIO


Agora ele só pensava em incêndios.Ali estava ele olhando aquela tela mais uma vez. Ela apareceu, e, depois de um longo silêncio cúmplice, lhe disse que tinha medo, mas, com ele, ela queria que chovesse. Deixou-o imaginar que talvez banhassem na chuva.

De longe a cena era original, estranha e bela. Era um homem abraçado a um incêndio debaixo da chuva torrencial.



PS. Não encontrei a fonte do texto, lembro somente que enquanto bailava pelo mundo dos blogs me apaixonei pela crônica, salvei e agora tempos depois, não resisti postei ;) 

quinta-feira, 11 de março de 2010

E aquilo que realmente me traduz em letras, fica guardado.
7 chaves o matem seguro.
7 chaves impedem que entrem em contato.
Talvez essas chaves não tranquem somente escritos.
Como explicar esse querer desmedido. Essa vontade de ter por perto sem nem ao menos saber se a companhia compensa. De onde vem essa angústia do ‘e se’. De repente eu simplesmente idealizei alguém. De repente ele não faria metade do que eu gostaria que fizesse. Talvez nem seja tão bom assim. Sem dúvida a angústia latente em mim, não se reproduz nele. Eu sinto, eu quero, eu espero que aconteça. E então como fico? Passiva? Esperançosa, mas de braços cruzados? E agir de que forma? Começar por onde? Amigos em comum? Relembrar as dicas das revistinhas da época da adolescência que sugeriam descobrir as preferências do ‘gato’? (Ah! Como aquilo era ridículo). Odeio fórmulas prontas. Odeio investidas baratas. Odeio não saber o que fazer. Odeio ainda mais essa sensação de impotência. De fato quando o assunto é coração, é homem e mulher, é conquista, é passatempo que for. As coisas parecem não evoluir. Pelo menos não pra mim.