Dói. E quando acho que enfim esta me deixando, volta. Dói. Nem estratégias, nem razão. Nada disso tem efeito. Continua a doer.
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Havia uma menina. Fios coloridos sendo embalados pelo forte vento. Unhas rosas em dedos trêmulos. Era difícil escrever.
O que ela trazia no peito, de colorido nada tinha. Era no máximo cinza. Isso a incomodava. Não gostava da ideia de trazer consigo sentimentos sem cor. Sem beleza.
Mas o que era cor e beleza? Naquele instante de cegueira não saberia definir.
Aliás do que menos precisava naquele momento era de definições. Queria mesmo se livrar de toda mesquinhez e egoísmo. Para isso devia primeiro aceitar que aqueles sentimentos eram indícios de egoísmo.
Desapego. Era isso, precisava se desapegar daqueles sentimentos.
O primeiro passo talvez fosse parar de justificar a dor. Nada de ‘não é isso, nem aquilo’. É dor oras. Desde quando dor também precisa de justificativas?
O jeito era, como naquele filme, mergulhar na dor, sentí-la e depois jogar fora. Bom seria se fosse simples assim.
E se esse desapego causasse ainda mais distância? Talvez ele fosse a solução para diminuir o abismo na verdade.
Ah o abismo, o medo de que tais sentimentos sem cor trouxessem de brinde um abismo gigante e pior um irremediável abismo.
Deve ser esse ideia assustadora que faz a menina se fechar em seu pequeno mundo (o que, claro, só piora) e em horas de solidão derramar rios de lágrimas. Abismo entre rochas um dia tão unidas.

